27/10/2021

Coluna Thaís Navarro: Confession

Parei para pensar! Confession e a ironia dramática

*O texto contém spoilers moderados sobre o drama Confession, tvN (2019).

“Se você pensar bem, o mundo é pequeno e está tudo conectado.”

Como esperado, nem só de drama vive a dorameira e é por esse motivo que resolvi falar sobre um assunto que vai além de dramas coreanos. A ironia dramática é um recurso utilizado em roteiros, em geral, sendo aplicadas no teatro e até mesmo em filmes. Para exemplificar, vou usar duas situações do drama Confession¹, exibido no início desse ano.

O drama conta a história de um caso envolvendo a verdade oculta por trás da lei que proíbe a dupla penalização. É proibido na lei coreana processar a pessoa duas vezes pelo mesmo crime.

Quando Choi Do Hyun era menino, ele teve uma doença cardíaca. Ele passou a maior parte de sua infância em um hospital e milagrosamente teve a chance de fazer um transplante de coração. Logo após a cirurgia bem sucedida de transplante de coração, seu pai foi acusado de assassinato e recebeu a pena de morte.

Para investigar o caso de seu pai, Do Hyun agora trabalha como advogado.

No livro The Sequence Approach, Paul Joseph² diz: “Ironia Dramática ocorre quando o público sabe mais do que um ou vários dos personagens na tela, uma condição que empurra a atenção do espectador para o futuro porque cria um sentimento de antecipação sobre o que vai acontecer quando a verdade vier à tona.”

Basicamente, o roteirista concede ao espectador o privilégio de uma informação e o convida a observar de camarote como o(s) personagem(ns) agem no estado de ignorância que se encontram.

Talvez falar desse tema sobre um drama que trata de informações não reveladas seja em si uma grande ironia mesmo, já que ironia dramática significa que o público sabe e o personagem não. Confession utiliza muito desse recurso, sendo que por várias vezes nos pegamos fazendo teorias, já que sabemos mais até mesmo do que os personagens principais. No entanto, o que não sabemos e temos até o fim do drama para descobrir é: A confissão foi verdadeira ou coagida?

Parei para pensar em duas situações que esse recurso foi utilizado no drama, sendo a primeira o mistério envolvendo Choi Ki Tak.

Os nossos protagonistas estão atrás de pistas para descobrirem a verdadeira identidade desse assassino perverso. O detalhe envolvido aqui é que o público já conhece a sua verdadeira face e sabe que ele está muito próximo. Essa proximidade só aumenta a angústia e nos faz temer pela vida dos personagens.

A segunda situação é que quando sabemos que a equipe da Madame Jin e a repórter Yoo Ri estão trabalhando em busca do mesmo objetivo que a equipe do Advogado Choi e o Capitão Ki. A cena é muito boa e eles se encontram em um local estratégico que faz referência a um evento muito significativo no drama.

A vontade que sentimos nesse momento é de contar para os personagens que eles precisam trabalhar juntos, unirem forças e perseguirem unidos, os verdadeiros culpados.

Como diz Paul Joseph Gulino, esta estratégia agarra o público pela expectativa que desperta. Assim que acessa uma informação e testemunha as ações dos personagens que estão alheios a ela, o espectador se pergunta: “O que vai acontecer quando o personagem descobrir o que eu já sei?”

Se o personagem que desconhece uma informação é aquele por quem o espectador cria empatia, o público torce para que ele descubra logo o que não sabe. Afinal, é doloroso ver que alguém por quem temos afeição esteja sendo enganado.

Se temos empatia pelo personagem que pode sofrer uma perda caso certa informação que ele esconde vier à tona,como é o caso do pai do advogado Choi, a aproximação emocional do público ativa o efeito de torcida. Quando torcemos pelo personagem, isso significa desenvolvemos empatia por ele. Um recurso muitas vezes utilizado com a ironia dramática.

Penso que se o roteiro te fez sentir empatia pelo personagem, a missão foi cumprida. Principalmente porque no caso de Confession, o final é muito satisfatório.

¹O drama está disponível apenas no Kingdom Fansubs.

²PAUL JOSEPH GULINO é um roteirista e dramaturgo premiado, cujos créditos incluem dois roteiros produzidos, além de inúmeras obras encomendadas e consultas de roteiro, e suas peças foram produzidas em Nova York e Los Angeles. Ele ensinou roteiro na Universidade do Sul da Califórnia por cinco anos e desde 1998 leciona na Chapman University em Orange, Califórnia, onde é professor associado.

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