28/10/2021

Coluna Thaís Navarro: Juror 8

Parei para pensar! juror 8: é razoável duvidar?

*Contém spoiler moderado sobre o filme Juror 8.

Tenho visto com frequência, principalmente em grupos do facebook, aos quais muitos não faço mais parte justamente por esse motivo, que críticas duras são atribuídas a pessoas, como forma de julgamento.

Atribuir opinião à pessoa, quando ela não pediu, acredito que além de vulgar é falta de respeito. Porém, a linha entre criticar construtivamente e fazer um julgamento é muito tênue.
Por se tratar de artigo de opinião, quero expor o que penso a respeito.

Recentemente assisti o filme Juror 8, que foi vagamente baseado no primeiro julgamento com juri popular na Coreia do Sul. O filme segue o caso de um filho matando sua mãe idosa, com todos os fatores que parecem apontar para uma sentença de culpado. No entanto, o julgamento não ocorre da maneira esperada. O oitavo jurado, o jovem empresário Kwon Nam Woo (Park Hyung Shik) questiona a autodeclaração de culpa do réu. Interessante que mesmo tempo depois de assistir o filme ainda me pego pensando no assunto. Pode não ser um roteiro tão original assim, já que em 1957 o filme 12 Angry Men trazia uma temática parecida*. Mas ressalto que, nos momentos mais tensos eramos apresentados a cenas cômicas e instigantes, então se você pensa que é só mais um filme jurídico cheio de burocracias você pode se surpreender.

Quando o jurado 8 começa a questionar as provas, nem todos concordam com ele e alguns têm pressa para que o julgamento acabe logo, visto que eles não podem deixar o prédio antes do veredicto, mas para esse jovem jurado viver com a consciência pesada porque julgou mal a vida de uma pessoa é um fardo muito pesado para se levar. A mensagem que o filme passa e me intriga muito é a diferença entre criticar e julgar. Como falei anteriormente a diferença entre ajudar e ofender alguém com a sua opinião pessoal é uma linha muito sensível.

Quando pesquisei sobre o assunto, descobri que a palavra “Crítica” vem do grego KRITIKOS, “capacitado para fazer julgamentos”, de KRINEIN, “separar, decidir, julgar”, relacionado a KRISIS, “julgamento, seleção”, do Indo-Europeu KREI-, “peneirar, discriminar, distinguir”. Para exemplificar escolhi separar os dois termos. Para ter efeitos positivos, coloquei a palavra a crítica para coisas e a palavra julgamentos para pessoas. Logo, criticar é separar, selecionar e distinguir enquanto julgar é expressar algo negativo sobre a vida alheia. Então precisamos ter em mente que não é ruim dar nossa opinião quando é um comentário muito simples e sabemos que é decisão da outra pessoa aceitá-lo ou não. Por sua vez, ter um espírito crítico buscando a melhoria contínua, é importante porque precisamos ser seletivos. Ser tolerante não significa aceitar qualquer coisa como bom. Significa respeitar o diferente.

Ao criticar um drama, por exemplo, colocamos critérios que caibam no contexto. E isso é totalmente diferente de julgar a pessoa que vê esse mesmo drama. O dano que o julgamento provoca é algo que merece a nossa reflexão.

O problema disso é que não ajudamos nem a quem julga, nem a nós mesmos. A diferença entre julgar e criticar objetivamente é baseada nos argumentos que mantêm sua opinião. Será que conhecemos todos os fatos envolvidos ou só falamos superficialmente?

No filme, temos situações onde até mesmo a classe social do réu é utilizada como argumento para a acusação declará-lo como culpado.Será que quando julgamos a pessoa estamos fazendo mal a ela ou realmente ajudando?

Os preconceitos são um grande problema em nossa sociedade. Eles nos limitam como pessoas e nos dão uma falsa sensação do que é e do que não é correto. E é bom lembrar que a nossa perspectiva não é a única!

Em muitas situações, não nos colocamos no lugar dos outros. A nossa visão é a única válida e isto nos impede de ver mais além e compreender outras perspectivas diferentes. Quem disse que a nossa forma de ver as coisas é a correta? Precisamos duvidar, aceitar que ambas as posturas podem ser corretas e que isto não faz uma melhor do que a outra. Nem sempre temos razão. Podemos estar enganados e julgando os atos de alguém de forma equivocada.

Acho sensacional a forma como o juri começa a se colocar no lugar do réu, da vítima e de sua família, realizando até mesmo uma reconstituição da cena. E não, você não vai se deparar com o programa Linha Direta da rede Globo. Você vai se sentir parte do juri também. A visão ampla, do crime como um todo, nos dá três opções, sendo inocente, homicídio culposo e homicídio doloso. E a pena vai variar dentro do veredicto culpado. Se comprovado que o crime foi premeditado, a pena pode ser maior ainda.

Abrir a mente e permitir-se descobrir novas perspectivas, pode ampliar nossa visão de mundo. Começar a ser uma pessoa aberta e tolerante fará com que sejamos uma pessoa melhor e nos permitirá entender melhor os outros. Quando julgamos a nossa verdadeira intenção é fazer com que os outros vejam o mundo como o vemos. Isso está certo e isso está errado, mas será que é realmente assim?

As diferenças não são negativas, pois nos ajudam a abrir a mente diante de situações diversas. Não podemos querer que alguém pense ou aja como nós. Então criticar coisas e não julgar as pessoas, fará com que tenhamos filtros e habilidades de consumir um conteúdo melhor e um relacionamento saudável com as pessoas. Criticando o drama e não julgando quem o assistiu, porque é razoável duvidar. E ninguém é culpado até que se prove o contrário.

O filósofo Jiddu Krishnamurti disse certa vez: “A forma mais elevada da inteligência humana é a capacidade de observar sem julgar”. Parece lindo na teoria, mas será que funciona na prática? E mais, caso fosse necessário julgar alguém seríamos inteligentes a ponto de dar ao réu dúvida razoável? O princípio do in dubio pro reo é um princípio fundamental em direito penal que prevê o benefício da dúvida em favor do réu, isto é, em caso de dúvida razoável quanto à culpabilidade do acusado, nasce em favor deste, a presunção de inocência, uma vez que a culpa penal deve restar plenamente comprovada.

Então, vamos por alguns minutos, sentar na cadeira do jurado n. 8° e dar ao próximo o benefício da dúvida razoável. Porque se estivéssemos sentados na cadeira do réu, seria esse jurado o responsável por mudar nosso destino.

¹ 12 Angry Men (br: Doze Homens e uma Sentença) é um filme estadunidense de 1957, do gênero drama. Um jovem porto-riquenho é acusado de ter matado o próprio pai e vai a julgamento. Doze jurados se reúnem para decidir a sentença, com a orientação de que o réu não deve ser considerado culpado ao menos que isso seja indubitável. Onze dos jurados, cada um com sua convicção, votam pela condenação. O jurado número 8, o sr. Davis, é o único que duvida da culpa do jovem e, enquanto tenta convencer os outros a repensarem a sentença, traços de personalidade de cada um dos jurados vão sendo revelados. Um remake foi feito em 1997 nos Estados Unidos.

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