05/12/2021

Preconceito em dramas coreanos

O SEU PRECONCEITO PODE PREJUDICAR ALGUÉM?

Falar abertamente sobre o vírus da imunodeficiência adquirida, ou seja, o HIV ainda é um verdadeiro tabu mesmo em meados dos anos 2020. Imagine falar sobre isso há quase treze anos atrás? Algumas pessoas pensam que evitando o assunto, ele não existe, mas não deve ser assim.

Durante a minha adolescência, entre 2003-2006, eu escutei bastante Cazuza e pensei: “Que legal seria se eu pudesse ir a um show de Cazuza”. Mesmo sem ser comum ter um computador naquela época, eu tinha. Então, comecei a pesquisar sobre o Cazuza, mas para minha surpresa ele estava morto. E por uma doença que eu não me recordo de ter ouvido antes. No caso do Cazuza, ele morreu mais precisamente por causa da AIDS (que é o estado de quando a doença está em pleno desenvolvimento). Lembrado que Cazuza morreu em 1990. De lá para cá, muito já se foi divulgado e ocorreram muitos avanços nos coquetéis antirretrovirais. O Brasil se tornou um país pioneiro e reconhecido internacionalmente devido ao combate ao HIV/AIDS. HIV e AIDS são estados distintos da doença.

Sei que o universo dos dramas é pequeno e dificilmente um drama retrataria sobre o HIV, mas não foi isso o que a roteirista Lee Kyung Hee pensou. Lá em meados de 2007 ela escreveu “Thank You”. Um drama realista, e que demonstra as fases da doença: A sua descoberta, a descoberta das outras pessoas sobre a sua doença e o preconceito. Tudo feito de maneira explicativa e realista, como deve ser.

Várias são as cenas de preconceito nesse drama com a personagem que tem apenas oito anos e com a sua mãe, que tanto batalhou para ensinar a filha a se virar sozinha por causa da doença. A cena da mãe pedindo para ela falar o check list, como por exemplo, você tem que usar o seu próprio lenço e guardar dentro da sua sacola e jogar fora. Foi tão bem bolada. Na história, a menina contraiu o vírus por causa de uma doação de sangue. Era a doação ou a morte. Ninguém sabia que o sangue estava infectado. Sendo assim, os médicos optaram pela doação, mas infelizmente aconteceu a fatalidade.

Um dia, a menina acaba saindo para encontrar uma amiga, e começa um temporal. No fim, a criança e a amiga encontravam-se em perigo. A mãe vai a sua procura, e acaba sofrendo um acidente. Devido ao seu estado, ela precisa de uma doação de sangue. No entanto, NINGUÉM da pequena ilha que ela vive desde a sua infância decide ajudá-la. Isso mesmo que você leu. Ninguém. Os médicos saem à procura das pessoas que tem o sangue B (mesmo dela), porta por porta já que é uma ilha, mas ninguém decide doar. Algumas pessoas até mentem dizendo que não tem sangue B, quando os médicos sabem que não é verdade, visto que eles possuem uma lista com o tipo de sanguíneo de cada um dos habitantes da pequena ilha.

Isso mesmo que você leu. Ninguém. Os médicos saem à procura das pessoas que tem o sangue B (mesmo dela), porta por porta já que é uma ilha, mas ninguém decide doar. Algumas pessoas até mentem dizendo que não tem sangue B, quando os médicos sabem que não é verdade, visto que eles possuem uma lista com o tipo de sanguíneo de cada um dos habitantes da pequena ilha.

Toda a cena me fez ficar desolada. Eu desabei. Por experiências pessoais, eu sei como o preconceito dói. Mesmo chovendo os médicos saíram batendo de porta em porta, mas as pessoas ignoraram. Os moradores não queriam nem escutar o básico com relação à situação “a sua doação não fará você contaminar, pois não haverá contato direto do seu sangue com o dela”. Não havendo contato direto, não tem como ser contaminado. E, pelo fato do vírus ter sido contraído por transfusão, a mãe da criança não tem.

O preconceito em qualquer área (coisa) da nossa vida nós cega. É tipo uma venda imaginaria que você próprio coloca nos seus olhos. Pessoas com HIV vivem uma vida normal, principalmente depois que tomam o coquetel regularmente. Os níveis no sangue se tornam até indetectáveis. Hoje eu conheço duas pessoas com HIV e convivem normalmente. Pessoas com HIV devem ter uma vida comum, sem julgamentos.

Ninguém conhece a realidade de ninguém e mesmo se conhecer, não cabe a nós julgar. Com isso, não estou dizendo que não deve se prevenir. Deve-se usar camisinha sempre, até com aquele namorado (a) de cinco anos. Pois, como todo medicamento invasivo, o coquetel antiviral possui efeitos colaterais imensos. E, sinceramente, ninguém merece tomar um medicamento durante toda a sua vida.

O vírus HIV pode ser transmitido de varias maneiras. Assim pega: Sexo vaginal sem camisinha, sexo anal sem camisinha, sexo oral sem camisinha, uso de seringa por mais de uma pessoa, transfusão de sangue contaminado, da mãe infectada para seu filho durante a gravidez, no parto e na amamentação e instrumentos que furam ou cortam não esterilizados. Assim não pega: Sexo desde que se use corretamente a camisinha, masturbação a dois, beijo no rosto ou na boca, suor e lágrima, picada de inseto, aperto de mão ou abraço, sabonete/toalha/lençóis, talheres/copos, assento de ônibus, piscina, banheiro, doação de sangue e pelo ar.

No caso do drama, logo induziram que a mãe também tinha, pois a filha tinha. Outro preconceito. Por coincidência dos dramas, o ex-namorado (pai da menina) apareceu no último minuto e acabou doando sangue para a protagonista. O que evitou que o estado dela se agravasse ainda mais. Será que precisaria disso tudo? A agonia toda para achar um doador, quando tínhamos tantos disponíveis? Creio que não.

Falando sobre doação de sangue no Brasil. Hoje, o Brasil possui dezesseis a cada mil brasileiros doadores de sangue. O percentual corresponde a 1,6% da população brasileira e está dentro dos parâmetros preconizados pela Organização Mundial da Saúde, que recomenda que 1% a 3% da população de cada país seja doadora. Do total de doadores de sangue em 2017, 62% são do sexo masculino e 38% são do sexo feminino. Nos últimos anos, as taxas de doação de sangue apresentam-se estáveis, no Brasil.

O Ministério da Saúde avalia que essa estabilidade indica um processo de conscientização da população, mas, reforça que é necessário promover e fortalecer as ações que estimulam a doação voluntária para manutenção dos estoques de sangue.

Ainda assim, em termos gerais, somente 1,6% da população brasileira entre 16 e 69 anos doam sangue ─ a ONU considera “ideal” uma taxa entre 3% a 5%, caso do Japão, dos Estados Unidos e de outras nações desenvolvidas. Isso não significa, por outro lado, que o Brasil doe “pouco”, mas sim que poderia “doar mais”, argumentam especialistas do setor da saúde à BBC Brasil.

O estudo também revela outra particularidade da doação de sangue no Brasil: seis em cada dez doadores (59,52%) são voluntários (ou espontâneos, aqueles que doam com frequência sem se importar com quem vai receber o sangue), proporção inferior à de Cuba (100% são voluntários), Nicarágua (100%), Colômbia (84,38%) e Costa Rica (65,74%). O restante (40,48%) é formado por doadores de reposição, ou seja, aqueles que doam por razões pessoais (quando um amigo ou parente precisa de sangue). Especialistas da área dizem preferir os doadores voluntários aos de reposição, pois conseguem ter maior controle sobre a procedência e qualidade do sangue.

Vamos ajudar um irmão? Vamos viver sem tantas amarras, sem tanto preconceito? Vamos ter mais e mais empatia? Dizem que o Brasil é um povo tão acolhedor com estrangeiros, por que não somos tão acolhedores com nossos irmãos?

Menos preconceito, mais amor. Doem sangue, doem vida.

Se você leu, o que achou do texto? Já viu “Thank you”?

Onde assistir: Meteor dramas e ondramanice.

Fontes de apoio:

AIDS.GOV.BR

SAUDE.GOV.BR

BBC.COM

FACEBOOK


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores originais e não refletem necessariamente a opinião das Coreanas de Taubaté.

Aline Silva
Aline Silva

31 anos. Fundei às Coreanas de Taubaté em Março de 2019. Entre idas e vindas sou dorameira há mais de 4 anos. Meus estilos preferidos são os Melodramas e Slice of Life. Meus dramas preferidos são: My Mister, Mother, SKY Castle e Thank You.

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