06/07/2022

Coluna Thaís Navarro: “Miss Hammurabi”

Parei para pensar! “miss hammurabi”: furar fila também é corrupção?


*Esse texto contém spoiler do episódio 9

“Pode ser como jogar ovos em pedra, mas surpreendentemente isso pode mudar o mundo às vezes, quando alguém faz uma pergunta que ninguém está fazendo”, frase do drama Miss Hammurabi, JTBC (2018) que me motivou a escrever o texto dessa semana.

Em vez de se concentrar em grandes casos, “Miss Hammurabi” lida com casos civis pequenos, mas intensamente combatidos, que podem ser enfrentados na vida cotidiana.

O título do drama é uma referência clara ao Código de Hamurabi, um dos registros mais antigos e mais abrangentes de códigos legais. Foi esculpido em um pilar e proclamado durante o reinado do rei babilônico Hammurabi de 1792 a 1750 aC. O novo apelido de Oh-reum (Go Ara), no entanto, a retrata como subordinada intrometida. Suas boas intenções de pressionar por mudanças na rígida ordem hierárquica da corte, embora altamente patriarcal, tornam-se um fardo para seus colegas de trabalho. E por ser novata, não familiarizada com seu local de trabalho, seu aparente idealismo é, na verdade, imprudente e exigente.

Miss Hammurabi foi meu primeiro drama júridico, acredito que esse seja o motivo pelo qual eu tenha tanta afeição a esse roteiro. Sempre preferi esse gênero a qualquer outro, antes mesmo de começar a ver kdramas.

Escrito por Moon Yoo-seok, o juiz supremo do Tribunal Distrital Leste de Seul, baseado no próprio romance do roteirista de mesmo nome, que foi publicado pela primeira vez em 2015 no The Hankyoreh(um jornal coreano)e mais tarde publicado em formato de brochura em 2016 pelo Munhakdongne Publishing Group. São 20 anos de experiência nesse roteiro!Em vez de lidar com grandes casos corporativos ou assassinatos cruéis, o drama apresenta histórias de pessoas comuns desesperadas, sob a perspectiva de três juízes diferentes.
Tratando cada caso meticulosamente, o drama presta atenção às nuances de cada indivíduo envolvido e seu eventual veredicto.

Para contextualizar, as cortes distritais são responsáveis pela maioria dos casos civis e criminais. Geralmente, um único juiz ouve o caso e torna um veredicto. Em situações onde o caso seja importante ou graves (casos que são puníveis com 1 ano ou mais de prisão), três juízes julgarão o caso.
Em dezembro de 2009, existia na Coreia 2.468 juízes, 1.699 promotores e 11.016 advogados particulares registrados.

Como a proposta desse texto é trazer um assunto que ninguém esteja perguntando, será que furar a fila também é corrupção?

No episódio 9, temos uma situação que vale a reflexão.

O Juiz Ba-Reum (interpretado por Infinite’s L/Kim Myung Soo) se depara com a mãe em um estado crítico de saúde. Ele chega ao pronto-socorro desesperado, sua mãe está aos gritos sofrendo de uma dor muito forte. Ele entra na frente das enfermeiras e médicos e mesmo assim não consegue o atendimento, visto que o hospital está cheio.

Nesse momento desesperador, o juiz passa por cima de todos os seus princípios (os quais ele segue religiosamente o drama todo) e usa de seu cargo como juiz para conseguir que o atendimento da sua mãe se torne prioritário. Liga para o dono do hospital, usa de seu cargo, da sua influência e de seus contatos, para solicitar atendimento prioritário. E consegue, é claro. Afinal, ele é um juiz.

Imediatamente, um senhor que chegou primeiro, trazendo uma senhora cadeirante reclama que a pessoa que ele trouxe deveria ser atendida primeiro e que a ordem de chegada foi feita para ser respeitada.

O médico que atendeu a mãe do juiz foi bem frio e mostrava seu descontentamento com o favoritismo que o juiz exigiu. Ao final do atendimento percebemos que o diagnóstico se tratava de pedra nos rins, enquanto a pessoa que chegou primeiro sofreu um derrame por esperar mais tempo na fila.

Ao receber a notícia que a senhora cadeirante sofreu o derrame devido à demora no atendimento, o juiz Ba Reum sofre de uma crise de consciência instantaneamente e se arrepende profundamente pelo que aconteceu. Ele se ajoelha e pede perdão, mas é óbvio que isso não adianta absolutamente nada.

Nesse momento vi a melhor atuação do Kim Myung Soo, que me perdoem os fans do drama do anjo, mas sentar no chão de um banheiro de hospital, vomitar e chorar desesperadamente após ter cometido uma falha irreparável, sem se importar com cara feia, foi muito recompensador. Uma das melhores cenas desse drama.

Mas o auge desse episódio, é que ele trata de um grande juiz sendo acusado e julgado justamente por privilegiar outros em troca de suborno.

Qual a diferença então entre juiz que fura a fila do hospital para o juiz que aceita propina?

Assédio moral e sexual no trabalho, abuso de poder, violência doméstica, drogas e muitos outros tópicos sensíveis e tabus da sociedade coreana foram retratados nesse drama, que fazem dele um dos melhores dramas que já vi.

Em meio há tantas crises presentes no mundo de hoje, tanto no Brasil como no mundo todo, assuntos relacionados a corrupção não deveriam estar somente em telejornais, mas presentes no nosso dia a dia. Ou será que é corrupção apenas nos casos onde um sujeito aceita suborno?

No mundo dos dramas estamos presenciando o movimento United Fansubs, onde as pessoas que traduzem e produzem as legendas sem ganhar quase nada com isso estão sendo atacadas e tendo seus trabalhos roubados por pessoas sem caráter e o mínimo de decencia. Algo que também presenciamos com frequência são posts copiados de páginas do Facebook. Até mesmo a parte de interatividade é copiada, sem escrúpulo nenhum, sem mencionar créditos ou valorizar quem criou. Vemos também um fansub fazendo isso com outro. Uma página copiando da outra.

É necessário proteger esse meio, respeitar o colega. No fim do dia todos temos o mesmo desejo: assistir um bom drama, legendado no idioma que preferimos e com a qualidade que estamos acostumados. Será que vale a pena furar a fila se isso vai fazer a fila deixar de existir?

Miss Hammurabi está disponível no viki, dramafansubs e Kingdom Fansubs.

Fonte de apoio: MOJ

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