27/11/2021

Coluna Thaís Navarro: One Spring Night

Parei para pensar! Irresponsabilidade ao tratar de assuntos sérios em “One Spring Night”

*Esse texto contém spoilers moderados sobre o drama

Chamado carinhosamente por mim e pela minha amiga de One Spring Nightmare (trocadilho com a palavra pesadelo em inglês), o drama da mesma roteirista de Something in The Rain*, tinha também o mesmo diretor, mesmo protagonista masculino, vários atores do drama anterior e até mesmo repetiram os artistas que fizeram a trilha sonora.

Assim como o drama Something in The Rain, One Spring Night aborda assuntos problemáticos e faz uma promessa de inovação ao tratar de tabus. Mas já deixo claro logo no início desse texto a minha insatisfação com esse drama e tudo que está relacionado a ele.

Não estou aqui para te dizer “Não assista querida coreana”, mas sim, para alertar sobre alguns pontos que acredito que não foram tratados com a responsabilidade que deveriam.

No décimo episódio eu já tinha notado que o drama não teria grandes evoluções e eu já não poderia esperar mais da protagonista vivida pela Han Ji Min. Mas terminei esse drama a fim de falar com propriedade sobre o assunto. Não foi tarefa fácil, confesso.

A trama traz um pai ‘solteiro’, visto que a mãe abandonou a criança assim que nasceu e ele deve cuidar sozinho dessa responsabilidade. No drama, ele tem ajuda dos pais, avós da criança que se tornam os responsáveis por cuidar e criá-la enquanto o farmacêutico mora em um apartamento próximo ao seu trabalho.

Nunca vi o termo pai solteiro encaixar tão bem em uma situação, afinal, ele é pai da criança e é solteiro, tem sua vida de solteiro, sua casa de solteiro e sua rotina de solteiro.

Não estou dizendo que está errado ter uma vida pessoal e uma rotina que não envolva o filho o tempo todo. O que precisamos entender é que ao trazer esse assunto, ao levantar a bandeira ‘pai solteiro’ num país cheio de tradições e costumes conservadores, é muito irresponsável tratar a realidade de tantas mães e pais que criam seus filhos sozinhos, sem nenhum suporte, sem nenhuma ajuda ou rede mostrando que é fácil, ou não tão difícil como na realidade é. Então quando vejo pessoas falando sobre One Spring Night dizendo que é um drama que retrata a vida de um pai solteiro, não é bem isso que vejo ao assistir o drama.Não vou nem citar aqui todas as similaridades com Something in the Rain, porque o texto ficaria imenso. Mas a infantilidade da protagonista e a dificuldade de se impor perante ao namorado doido é uma aflição. Novamente, pode ser a realidade de alguém, mas no mínimo é muito triste ver alguém sem voz sendo manipulado o tempo todo.

O segundo ponto e minha maior preocupação ao ver esse drama, foi o caso de violência doméstica que tinha como vítima a irmã da protagonista, que era jornalista, casada com o dentista.

Seu marido a agredia tanto fisicamente quanto sexualmente, o que a fez engravidar inclusive, e por medo de ter sua reputação abalada na televisão decide desistir de sua carreira como âncora do jornal, semelhante a se divorciar mais tranquilamente. O que penso ser absurdo na forma como o drama tratou esse assunto é a questão da impunidade. Novamente se utilizam desse tema, para levantar uma discussão sobre o problema da violência domestica, deixar o agressor sair livre de seus erros sem pagá-los judicialmente é terrível. Como citei, até mesmo estupro marital esse bandido cometeu. A vítima tinha no cofre um dossiê com fotos e evidências das agressões. No entanto, de modo a conseguir um divórcio ela não apresenta queixa alguma sobre o ex-marido dentista.

Senti necessidade de falar sobre esse roteiro imaturo e irresponsável devido ao efeito midiático. A mídia possui um impacto na sociedade, ela não apenas retrata a realidade mas tem o poder influenciador de mandar uma mensagem de esperança. Costumo dizer que em jornais ou documentários, conseguimos ver a realidade crua, mas no entretenimento não faz sentido, a meu ver, mostrar apenas o lado ruim.

Estou me referindo a 16 episódios que não tiveram uma conclusão satisfatória. Os grandes conflitos não se resolveram e superficialmente, deram um final muito semelhante ao de Something in The Rain.

Vale lembrar que o ex namorado da protagonista se mostrou um psicopata perseguidor, um comportamento que além de inaceitável era totalmente desnecessário.

É normal as pessoas não entenderem o final de um longo relacionamento e sofrerem por conta disso. Pode acontecer com qualquer pessoa. No entanto, me pareceu que a roteirista usou isso como justificativa para que o relacionamento da moça com o farmacêutico se tornasse aceitável, como se o Ji Ho não fosse um bom partido por ter um filho então para que o público coreano o aceitasse, o ex namorado deveria ser o pior partido da face da terra. Na minha opinião, o drama tomou um rumo contrário ao seu propósito e foi preconceituoso. Ambos os personagens masculinos poderiam ser bons já que o poder de escolha da mulher em questão deve ser exclusivo dela, sem depender da opinião alheia.

Ao levantar bandeiras como essas, de um pai que cria um filho sem uma esposa num país conservador e de violência doméstica e abuso sexual dentro do casamento, não podemos ignorar a forma como esse assunto será concluído. Estamos dando voz a esse tipo de discurso, então ele precisa ser responsável.

O que você pensa sobre a responsabilidade que os dramas possuem ao tratar de temas sérios? Até que ponto a mídia influência você? Me conta.

* A Aline já fez um texto sobre Something in The Rain, ele está disponível na aba análises de dramas direto de Taubaté.

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