27/11/2021

MEMORIST E A GRAÇA DO NÃO SABER

Imagine poder ter algum poder sobrenatural. Voar? Super força? Teletransporte? Fogo? Gelo? Esticar o próprio corpo? E, que tal, ler mentes? Não. Mais específico ainda: ler memórias. Consegue pensar em ser capaz de fazer isso? 

Essa é a habilidade especial de Dong Baek, o protagonista do drama, que atualmente vai ao ar pela tvn, Memorist. Ao tocar em alguém e concentrar-se ele é capaz de ler suas memórias, das mais recentes às mais antigas. 

A ideia de ler a mente de alguém por si só parece tentadora e deliciosa. Pense aí, saber quando mentiram para você, ver um momento pelo ponto de vista de outro como um filme em outra câmera, usar isso para conseguir provas de crimes e servir à justiça (como o próprio Baek fez), as possibilidades são tantas!  

Mas, como sabiamente disse tio Ben, com grandes poderes vem grandes responsabilidades, e essa não seria diferente. O preço a se pagar é altíssimo e, logo quando pensei se gostaria de ter poder, me perguntei se seria capaz de aguentá-lo. 

Ler memórias significa saber de algo que não lhe foi contado. É adentrar no mais fundo de alguém, mais íntimo, onde pode ser considerado o local mais seguro para seus segredos. Ler memórias significa, mesmo silenciosamente, a pessoa não ter nada escondido de você.  

Estaria eu preparada para descobrir coisas sujas e feias sobre as pessoas mais lindas e próximas para mim? Ver a confiança sendo despedaçada bem diante dos meus olhos? O afeto se esvair? 

Ler memórias também significa mergulhar nas piores lembranças de alguém, assistir seus traumas, ver os rostos das pessoas que mais a fizeram sofrer, sentir cada dor e medo como se fossem nossos. 

Estaríamos nós preparados para nos deparar com as coisas feias e sujas que fizeram àquela pessoa? Saber seus rostos, nomes, vozes, o corpo lembrar de como o outro se sentiu no momento, acumular feridas? 

Nesse negócio, o lance de alto risco traz resultados de riscos tão altos quanto. 

Poder saber demais sobre as pessoas pode aumentar tudo: medo, desconfiança, raiva, insegurança, tristeza, ansiedade. Em um instante sou sociável e falo com todos, no outro evito sair de casa pois não faço contato físico com ninguém.  

São dois lados de uma mesma moeda: ou ficar insensível demais depois de tanta falta de caráter testemunhada, maldade, a  empatia dando adeus bem de longe; ou se fica sensível demais, deprimido, ansioso, recluso, sem conseguir lidar com o que descobriu, sem esquecer e seguir em frente, com medo de acontecer mais uma vez. 

Um padre que conheci gostava muito de dizer que a ignorância também salva, e hoje vejo que ele estava certo. Não ser capaz de saber tudo nos salva. E salva ao outro também. 

É graças a não poder saber sua história toda ao lhe tocar que as pessoas perguntam seu nome, ficam curiosas, e esperam que você mesmo conte tudo que há para saber. É por termos as memórias de uma vida toda influenciando e construindo a pessoa que somos hoje, que posso ser divertida, agradável e interessante sem saberem exatamente o porquê. 

Foi por um pequeno trauma do passado que deixei de conseguir confiar totalmente nas pessoas logo, mas isso você não precisa saber, pois é capaz de conquistar isso. E ninguém precisa saber quantas horas eu fiquei conversando com o pôster do meu idol como se ele fosse responder! 

Poderes são divertidos de imaginar, mas na realidade não, deixem eles para a ficção. 

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: