27/11/2021

Fix You: o drama que tinha tudo para ser maravilhoso e despencou ladeira abaixo

Spoilers moderados de Fix You.

GATILHO: Se você tem algum problema psicológico como Borderline, esse conteúdo pode ser gatilho para você.

Nos termômetros postados na página e em nosso piloto do podcast, falei o quão estava decepcionada com Fix You, não satisfeita, vou fazer esse texto, só para conseguir encerrar essa página na minha vida, ou não (rindo de nervoso).

Fix You veio com uma premissa muito interessante, abordar o tema: saúde mental, eu estava muito ansiosa para esse drama e não via a hora de estrear. E eis que chega o tão sonhado dia, o primeiro episódio foi a coisa mais linda, o segundo eu já estava querendo gritar HINO, terceiro e quarto sem defeitos, quando veio o quinto, em me senti igual o Tite quando caiu enquanto comemorava o gol da seleção, o tombo foi feio, meus amigos e eu não estava preparada.

A sinopse de Fix You começa da seguinte maneira: “como lidar com a raiva? De onde vem a felicidade? Estas são as perguntas centrais de Fix You”. Cheguei ao episódio 8 e sinceramente não vi em nenhum momento a Woo Joo aprendendo a lidar com a raiva e encontrando o sentido de sua felicidade, o que eu vi foi o uma personagem sofrendo minuto após minuto, tendo a sua situação agravada três vezes em menos de duas horas foi ápice, não consegui continuar.

Vamos ao alguns detalhes que me fizeram dropar e ficar tão insatisfeita com esse drama. A personagem da Woo Joo sofre de transtorno de raiva intermitente e para incrementar, ela também tem transtorno de personalidade borderline. Não sabe o que é? Segue definição: “O termo “borderline”, que em inglês significa “fronteiriço”, teve origem na psicanálise: esses pacientes não podiam ser classificados como neuróticos (ansiosos e exagerados), nem como psicóticos (que enxergam a realidade de forma distorcida), mas estariam em um estado intermediário entre esses dois espectros. O primeiro autor a usar o termo foi o psicanalista norte-americano Adolph Stern, em 1938, que descreveu o transtorno como um tipo de “hemorragia psíquica” diante das frustrações”*. Situações sofridas durante a infância podem contribuir muito para o desenvolvimento do transtorno, muito são os sintomas, bem como, sensação de abandono, alteração abrupta de humor, auto sabotagem quando estão prestes a conseguir algo, dificuldade de controlar a raiva, entre outros. Se quiser saber um pouco mais, no site Manual MSD tem um pouco sobre o assunto, vou deixar o link no final do texto.

Como vimos, a Woo Joo foi abandonada por sua mãe biológica, foi adotada por uma família e essa família também a abandonou seis anos após a sua adoção, a mãe adotiva foi lá no orfanato deixá-la de volta, bem como, quando você compra uma mercadoria danificada e depois devolve para a loja. Ainda sim, Woo Joo vai ao encontro de sua mãe adotiva o tempo inteiro, porque claro, além dela ter borderline, sua mãe adotiva é única pessoa que ela tem como família. Não é de espantar que Woo Jo tenha a sensação de abandono o tempo inteiro e sente que a qualquer minuto todos que estão a sua volta vão lhe deixar. Ah, ela também foi traída em todos os relacionamentos que teve, só de pensar me dá uma revolta maior ainda, como esse roteiro foi tratado com tanta irresponsabilidade.

A personagem faz terapia para aprender a lidar com a raiva e chega na décima sessão e não se tem nenhum progresso, sua psiquiatra já está preocupada com a situação e então decide passar o caso para o seu amigo, o psiquiatra Si Joon, por um acaso, eles já haviam se conhecido antes. Si Joon então começa a tentar inserir Woo Joo no meio de suas terapias, ah, ela é atriz e o psiquiatra começou a implantar a drama terapia como método de ajuda para seus pacientes, e quem ficou a cargo de fazer a interpretação foi a Woo Joo. Ela então decidiu se abrir e confiar em Si Joon e pediu para ser curada, ela ainda pediu que ele não fosse um médico ruim e que não voltasse atrás na primeira oportunidade.

Si Joon foi pintado como um psiquiatra diferente, ele é excêntrico e se importa verdadeiramente com seus pacientes e tenta ajudá-los de forma pouco ortodoxa. Ele acompanha seus pacientes fora do consultório, tenta tratá-los sem ajuda de remédios e realmente se importa com bem estar e progresso dos mesmos. Só há um porém, Si Joon também tem seus traumas e passado para lidar, e também tem seu pai que sofre de demência e está internado em um asilo psiquiátrico. Eu achei “ok” ele ter toda essa carga emocional, desde que seus pacientes não sofressem com isso, realmente alguns deles não sofreram, mas a principal de tudo isso, só foi sofrendo a cada episódio.

Tudo lindo até que um belo dia, o hospital é denunciado por admitir um menor sem consentimento de seu guardião, e o responsável pelo paciente era o Si Joon, contratempos aqui e ali, ele foi proibido de tratar seus pacientes e ficou muito revoltado, claro, indo embora do hospital, Woo Joo pula em frente ao seu carro para conseguir atenção, e ele só dá meia volta e vai embora, minha indignação já começou aí, ele nem sequer foi verificar se ela estava bem, “ah, mas ele estava mal naquele momento” não justifica, por mais mal que ele estivesse, em uma situação como essa, tem que pelo menos verificar se a pessoa não se machucou. Si Joon então tem a epifania e descobre que além do de não conseguir controlar a raiva, a personagem tem borderline, até aí tudo bem, certo? Errado, acabamos descobrindo que o psiquiatra tem trauma e não trata pacientes com o borderline devido a sua namorada que também tinha o transtorno, ter cometido suicídio enquanto os dois estavam em um encontro. E sua colega simplesmente jogou a Woo Joo para ele, para ajudá-lo a se “curar” do trauma, erro dois, gente, pacientes com transtornos de personalidade são um caso sério, não podem simplesmente serem usados como cobaia para curar outra pessoa.

Depois daí, o negócio começou a desandar de uma forma, que fui ficando cada vez mais preocupada. Si Joon decidiu não tratar mais Woo Joo e a demitiu da drama terapia, ela entrou em um estado de depressão (depressão repentina também é um dos sintomas de borderline) tanto que sua amiga falou que preferia que ela explodisse ao invés de aceitar tudo calada, o estado mental dela ficou um caco, porém, ela presenciou o momento em que Si Joon descobriu que foi seu pai que o denunciou para o ministério público, erro três, a forma como ele tratou o pai, foi tão horrível, me senti mal assistindo a cena, se ele não queria vê-lo como pai que o visse como paciente e que lhe tratasse com humanidade. Woo Joo então vai atrá de Si Joon e toca uma música e dança para ele, e então o “cura” naquele momento, “olha que bonito, é tão legal ver que por mais que uma pessoa esteja quebrada, ela pode ser a cura de outra”, não, não mesmo. Se pessoas “normais” conseguissem ajudar pessoas com problemas psicológicos, para que existiriam psiquiatras e psicólogos não é mesmo? A partir desse momento o romance começou, Si Joon começou enxergá-la de outra forma e Woo Joo já estava se apegando ele, depois disso se apegou ainda mais, erro quatro e praticamente decisivo para eu dropar o drama, mas decidi assistir os próximos episódios para tomar minha decisão, e a roteirista não decepcionou no desastre.

Os episódios 7 e 8 foram um show de horrores, a mãe de Woo Joo mudou de lugar sem informá-la e ela ficou extremamente desesperada, vimos toda sua angústia tentando encontrar a mãe e quando a encontrou, não foi nada bem. Esqueci de comentar que a mãe adotiva se sentia extremamente incomodada por Woo Joo ir visitá-la, já que ela tinha abandonado-a e sempre perguntava se a atriz fazia isso para deixá-la com a consciência mais pesada, por isso ela resolveu mudar. Quando Woo Joo encontrou seu novo endereço, foi visitá-la, já que era o aniversário de sua mãe, as duas tiveram uma briga, a personagem teve seu ataque de raiva e sua mãe a chamou de monstro e disse que por isso tinha abandonado-a. Depois de ter sofrido toda essa dor, Woo Joo então descobre que sua psiquiatra passou o seu tratamento para o Si Joon, claro que ela foi tirar satisfação e disse a seguinte frase “você sabe o que fez? me abandonou. Por que fez isso?”. Achou pouco o sofrimento? Ela então decidiu se reerguer e acreditou que Si Joon seria diferente, porém, ela acabou escutando uma conversa entre ele e os diretores do hospital, onde ele dizia que o relacionamento deles era única e exclusivamente profissional. E pela terceira vez em em menos de duas horas, Woo Joo teve sensação de abandono e seu estado mental tratado como brincadeira.

E o último ponto que vou falar, antes de fazer minhas considerações é, a Woo Joo começou a ter sentimentos por Si Joon, só que na trama, isso estava sendo tratado o tempo todo como transferência, ela já armando o casamento na cabeça dela e ele tentando se esquivar de todas as maneiras para não tornar a situação pior, isso pra mim foi o auge do sofrimento e foi quando percebi que a roteirista estava dando mais atenção ao romance do que realmente ao tema saúde mental, e o que é pior, fazendo de gato e sapato o transtorno de personalidade da Woo Joo, realmente não consegui continuar. Tem muito mais coisas que percebi que foram tratadas de forma irresponsável, mas esse texto já está bem grande e acho que já foi o suficiente para vocês perceberem o porquê de eu ter me incomodado tanto com Fix You.

Minha expectativa com esse drama era muito grande porque achava que ele ia mostrar para a sociedade coreana e para as dorameiras que assistem, que tudo bem você procurar ajuda psicológica, você não está doido, apenas está sofrendo e quando reconhecer isso, vai começar o processo de cura. O drama realmente começou muito bem, tanto que a audiência foi caindo, porque nos primeiros episódios a roteirista expôs os problemas e mostrou que nem tudo é biológico, e sim, seu cérebro pode criar aquilo, mas está tudo bem, isso tem tratamento e logo, logo você se consegue ficar bem “PROCURE AJUDA PSICOLÓGICA” foi a mensagem principal, claro que isso incomodou muita gente.

A Coréia do Sul é o país desenvolvido com o maior número de suicídios por habitante, em 2012 estava com uma média de 29,1 casos para cada 100 mil, e pelo nono ano consecutivo ficou em 1º lugar na lista, ficando com a média muito atrás da Hungria que ficou em segundo lugar com 19,4 casos para cada 100 mil habitantes.

Mais de 14 mil pessoas se suicidam por ano na Coréia, pessoas de diversas idades e por diversos motivos, ano passado tivemos várias notícias de suicídio de famosos, atores e idols que amávamos, que estavam sofrendo em silêncio, não sabemos o motivo de não terem procurado ajuda. Mas era por esse motivo que eu tinha muita expectativa e esperança com Fix You, que ele mostrasse para a sociedade, que você pode sim procurar ajuda, que não errado e que ninguém tem que lhe julgar por isso, você está sofrendo e precisa ser curado assim como se tivesse com algum problema físico, o médico estaria ali para lhe curar, o psicólogo ou psiquiatra estaria ali para tratar sua alma e mostrar que tem saída e uma luz no fim do túnel para o seu sofrimento, mas infelizmente o roteiro se perdeu quando deixou de lado o sofrimento de uma pessoa para focar no romance dela, quero deixar bem claro que não sou contra romance, mas sim como ele é mostrado para o público, e no drama, ele foi tratado de uma maneira muito irresponsável.

Tenho que dizer que até os episódios que assisti, gostei dos problemas psicológicos que foram apresentados, me fizeram ir para google para pesquisar e entender mais sobre, mas infelizmente, para mim já tinha chegado ao limite e preferi parar para não sofrer mais ainda.

Por hoje é só pessoal, mas quero saber de vocês, o que acharam de Fix You? concordam comigo? têm mais alguma coisa a acrescentar?

Segue os links de onde tirei as informações contidas nesse texto, caso queiram saber mais sobre.

*Definição tirada do site:

https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2018/04/16/borderline-a-doenca-que-faz-10-dos-diagnosticados-cometerem-suicidio.htm

https://www.msdmanuals.com/pt/profissional/transtornos-psiquiátricos/transtornos-de-personalidade/transtorno-de-personalidade-borderline-tpb

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2015/09/18/coreia-do-sul-a-republica-do-suicidio.htm


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