28/10/2021

PAREI PARA PENSAR! CHOCOLATE – UM ENSAIO SOBRE A EMPATIA

O texto possui spoilers moderados do drama Chocolate, JTBC (2019). Disponível na Netflix.

“Estou correndo há muito tempo para procurá-lo. Houve momentos em que eu queria parar. Às vezes, eu queria cair e desmoronar. E às vezes me perdi. Mas por sua causa, eu poderia vir até aqui. Depois de muito tempo, é aqui que a nossa história começa “.

No dicionário, empatia segundo a sociologia é uma forma de cognição do eu social mediante três aptidões: para se ver do ponto de vista de outrem, para ver os outros do ponto de vista de outrem ou para ver os outros do ponto de vista deles mesmos.

Primeiramente, deixo claro que sou muito sensível e choro com facilidade em alguns tipos de cenas. Melodramas nunca são minha primeira escolha ao procurar uma série ou filme. Ainda se tratando de Chocolate, entendo que muitos poderiam começar o drama devido ao casal que aparece nos posters pensando que é mais um romance ou ainda mais um romance na Netflix! E não é bem isso que o drama te propõe desde o primeiro episódio.

Segundo, que melodrama em sua definição crua, é exagero. É muito importante entender o gênero antes de julgar, porque se trata de obviedades.
Dito isso, vamos falar da empatia necessária para se conectar com os personagens?

A personagem Moon Cha Yoon, logo no início do drama aparece numa cena de ataque de pânico e se esconde embaixo da cama do hospital. Nisso o personagem Lee Jun, com zero empatia dá as costas, afinal ele é neurocirurgião e não psiquiatra. Isso causa um certo desconforto entre a enfermeira e a Cha Yoon. Tentando remediar a situação, a enfermeira diz que uma pessoa da família dele também estava presente no acidente que ela tem traumas, e que essa pessoa morreu.
Diante desse fato, fiquei confusa e questionando muito esse roteiro, porque não tinha ficado claro se era alguém da família do Lee Jun ou se era a mãe do Lee Jun.
Lembrando que isso acontece logo no início, então não fica óbvio o que realmente aconteceu.
Ressaltando a questão cultural e de linguagem, depois entendemos claramente que a enfermeira cita que é alguém da família dele, alguém tão próxima quanto a mãe. É necessário paciência para entender detalhes que serão esclarecidos no decorrer do drama.Então entendemos que a tia do Lee Jun, mãe do Lee Kang foi quem morreu no mesmo acidente que a Cha Yoon estava presente.

Quando temos a situação preparada para o casal principal se encontrar, claro que o roteiro não vai deixar isso acontecer tão fácil, estamos falando de melodrama não é mesmo? Nosso protagonista é enviado para a Líbia. Um país em guerra e necessitado de ajuda humanitária. Nesse episódio, não tinha entendido ainda a necessidade disso, porque depois Lee Kang quase morre.
Porém, é nessa experiência de quase morte que Lee Kang sonha com a sua mãe e num estado de coma, ele volta ao restaurante em Wando, promete a ela que vai viver uma vida melhor do que tem levado. Esse momento é importante porque Lee Kang está claramente perdido em uma briga que ele não quer lutar.
Essa tragédia também une Min Seok com Cha Yoon, que apesar de rejeitar o amor desse amigo do Lee Kang, devido a muita insistência dele, ela acaba aceitando. O resultado já sabemos. O próprio Min Seok entende que o coração dela é do Lee Kang e sempre foi.

Outra situação que chama atenção, novamente se trata de uma diferença cultural, que eu como brasileira percebi e me questionei. Mais uma vez preciso me colocar no lugar dos personagens para me conectar com eles e me permitir. Somente depois desse exercício, posso me emocionar ao assistir a cena.
Quando Cha Yoon vai até Wando com Lee Kang, eles saem a noite, passam o dia todo e vão dormir, sem tomar banho!Não trocam de roupas e ficam sem tomar banho. Parece o fim do mundo para você também?

Diante dessa situação pude pensar em duas hipóteses:
Primeiro que a cultura de tomar banho é diferente em cada lugar. De acordo com a fonte citada no fim desse texto, 1 a cada 2 pessoas apenas, toma banho todos os dias na China e em outros países asiáticos. Nós brasileiros, que vivemos em clima tropical sentimos a necessidade e temos a cultura de tomar banho todo dia e até mais de uma vez no dia. Outros povos não.
Segundo que, os protagonistas se encontram em estado de luto não apenas pelo Sr. Ha, motivo pelo qual viajaram mas, luto por terem sofrido tanto na infância, pela falta dos pais, pelas perdas e sofrimentos que trazem consigo e pelas dificuldades que eles vão encarar quando voltarem para Seul.
Mesmo nessa situação, depois nos mostram que a Cha Yoon se lava antes de dormir, talvez o cabelo e rosto e que Lee Kang troca de roupa mencionando que tomou banho. É interessante notar que nesse caso, que ao citar isso é como se ele estivesse dizendo que ele está pronto para voltar.Também, perceber que eles não tomaram banho mas cuidaram do cachorrinho Mar e dormiram bastante, nos mostra como o sofrimento da perda é difícil e que cada um tem uma forma de lidar.

Em um diálogo com Lee Jun ainda em Wando, Cha Yoon fala que Lee Kang a inspira a “subir uma montanha com apenas uma perna”. No drama, Kang perdeu a estabilidade da mão e ela não tinha olfato e paladar. Ambos perderam aquilo que era necessário para desempenharam suas profissões. Como escalar uma montanha com uma perna só? Foi então que eu percebi o motivo e uma mensagem valiosa sobre se reerguer. Quando tudo que você sabe fazer cai por terra, como você sobreviverá? Como subirá a montanha se tirarem uma perna sua?
Kang estava tentando. Mesmo exausto e desanimado naquele momento, seu esforço mostrava que ele queria encontrar uma saída. E isso transformou Lee Jun, seu primo até então apático.

Procurei citar aqui no texto as supostas divergências que li em comentários de algumas pessoas questionando a qualidade desse drama. Depois de expor os fatos e as motivações, te pergunto: Esse tal exagero causado no melodrama Chocolate te incomodam ou te fazem exercitar a empatia?
Lembrando que o drama ainda tem muitas cenas calorosas e emocionantes, embora também tenha cenas tristes e realistas. É um drama que mostra um hospital em que pacientes terminais estão passando o resto de duas vidas e uma das lições mais importantes que o drama nos dá é que ver esses personagens na perspectiva deles mesmos, nos ajudarão a valorizar nosso dia de hoje e em como é bom estar vivo.

“O dia que você desperdiçou hoje, é o amanhã que alguém que morreu ontem, tanto desejava”.

Fonte utilizada no texto: http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2015/08/tomar-banho-todos-os-dias-nao-e-pratica-comum-em-alguns-paises.html


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores originais e não refletem necessariamente a opinião das Coreanas de Taubaté.

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