27/10/2021

‘A BELEZA É LIVRE’: A GERAÇÃO Y NORTE-COREANA ESTÁ USANDO MAQUIAGEM COMO UMA FORMA DE SE REBELAR CONTRA O GOVERNO

A aspirante a atriz Nara Kang, usa um batom vermelho coral e gentilmente põe blush laranja em suas bochechas, o glitter branco varreu seus olhos, brilhando enquanto inclina sua cabeça em direção à luz. 

Kang nunca conseguiu usar esse tipo de coisa quando vivia em Chongjin, província de Hamyong Norte. 

“Colocar um batom vermelho é inimaginável na Coreia do Norte”, disse ela. “O vermelho representa o capitalismo e talvez seja por isso que na sociedade norte-coreana eles não nos deixem usar”.

Kang agora vive em Seul, na Coreia do Sul. A jovem de 22 anos fugiu da Coreia do Norte em 2015, escapou do regime que restringe a liberdade das pessoas, da forma como ela se vestia e até como amarrava o cabelo.

A maioria das pessoas na cidade de Kang, eram autorizadas apenas a usar cores fracas nos lábios, às vezes rosa, mas nunca vermelho. E pessoas com cabelo grande, tinham que usá-los bem amarrado ou com trança, disse ela.

“Colocar um batom vermelho era inimaginável na Coreia do Norte”, disse ela. Crédito. CNN

Kang andava nos becos ao invés das vias principais, a fim de evitar encontrar com a “Gyuchaldae”, a chamada polícia da moda da Coreia do Norte.

“Toda vez que usava maquiagem, as pessoas mais velhas da vila diziam que eu era uma sem-vergonha corrompida pelo capitalismo“, lembra Kang “Havia uma unidade de patrulha a cada 10 metros, que repreendia os pedestres por causa de suas roupas”.

“Não éramos autorizados a usar acessórios como esses”, disse ela, apontando para seu anel e bracelete de prata. “Ou pintar nosso cabelo ou deixá-lo solto assim”, ela gesticulou para seu cabelo ondulado.

Uma funcionária posa para um quadro onde tem os estilos de cabelos permitidos em salão para mulheres no Munsu Water Complex em Pyongyan, Coreia do Norte em 2018. Crédito. Carl Court/Getty Images

De acordo com dois desertores entrevistados pela CNN para essa história, que deixaram o regime entre 2010 e 2015. Vestir roupas que parecem “muito ocidental”, como minissaia, camisas com escritos em inglês e jeans apertado, pode levar a pequenas multas, humilhação pública ou punição, as regas variam de acordo com a região.

Dependendo da acusação ou da unidade de patrulha, os desertores disseram que alguns acusados são obrigados a ficar de pé no meio da praça da cidade e aguentar duras críticas dos policiais. Outros são forçados a fazer trabalho pesado.

“Muitas mulheres são instruídas ou aconselhadas por suas famílias, escola ou empresa a vestir roupas bem passadas e ter uma aparência limpa”, explica Nam Sung Wook, um professor de Estudos Norte-Coreano da Universidade da Coreia.

Pedestres esperando ônibus em Pyongyang, Coreia do Norte em 2017. Crédito. Ed Jones/AFP/Getty Images

Eles devem viver em um dos países mais restritivo do mundo, mas Kang disse que ela e outros norte-coreanos da geração Y, ainda mantinham as tendências da moda de fora do país.

É fácil, disse ela, se você souber onde procurar.

CULTURA DO MERCADO CLANDESTINO

Traduzido como “mercado”, Jangmadang é o nome dado para o mercado local norte-coreano que vende de tudo, desde frutas, roupas a produtos domésticos. Ele começou a prosperar durante a grande fome dos anos 90, quando as pessoas perceberam que não podiam depender apenas da comida dada pelo governo.

Muitos norte-coreanos ainda fazem compras de produtos de necessidades diárias nestes mercados, mas eles também são o alvo de produtos ilegais contrabandeados para o país.  Conteúdos estrangeiros como filmes, clipes musicais, e novelas, são copiados em USB, CD ou cartão de memória, na Coreia do Sul ou China e contrabandeados para a Coreia do Norte, de acordo com o Ministério da Unificação sul-coreano. 

Este também é o método que muitas organizações de direitos humanos usam para enviar informação desafiando o regime.

Ativistas enchem garrafas de água com arroz, dinheiro e USB com arquivos de K-Pop, a ser jogadas  no mar, em  direção a Coreia do Norte na Ilha Ganghwa, Coreia do Sul em 2018. Crédito. Ed Jones/AFP/Getty Images

“Cidadãos jovens norte-coreanos, estão tendo acesso à cultura de fora do país”, diz Sokeel Park, diretor de pesquisa e estratégia para os direitos humanos do grupo Liberty in North Korea, localizado na Coreia do Sul.

“Isso tem efeito nas tendências de moda, estilo de cabelo e padrões de beleza dentro da Coreia do Norte”, adicionou Park. “Se os jovens norte-coreanos assistem aos programas de TV sul-coreanos, eles vão querer mudar seus cabelos e roupas para o mesmo estilo dos sul-coreanos”.

Joo Yang coloca um colar de pérolas criado por ela em Seul, Coreia do Sul. Crédito. CNN.

 Antes de fugir da Coreia do Norte em 2010, a desertora e agora designer de joias, Joo Yang, disse que ela e seus amigos costumavam visitar o mercado Jangmadang para encontrar USB com filmes e clipes de músicas da Coreia do Sul.

Segundo Yang, no mercado, mulheres contrabandistas costumam falar com sotaque de Seul, para atrair a atenção de jovens que já haviam tido contato com a cultura sul-coreana.  Às vezes, alguns mercadores costumam levar seus clientes à suas casas onde há quartos cheios de roupas e cosméticos, de acordo com Yang.

Cosméticos da Coreia do Sul são duas ou três vezes mais caros que produtos feitos na China ou Coreia do Norte, disse ela. Ela teve que pagar duas semanas de alimentação para comprar uma simples máscara ou batom da Coreia do Sul.

Vitrine de cosméticos dentro de uma loja em Seul, Coreia do Sul em 2019 Crédito. CNN

O mercado é tão popular entre os jovens, que eles se chamam de “geração do Jangmadang”, disse Park, que produziu um documentário de mesmo nome analisando a vida de jovens norte-coreanos e seu impacto na sociedade. 

A fome alterou o sistema de ensino, então muitos da geração Jangmadang, literalmente cresceram comprando nos mercados, e tiveram maior percepção do capitalismo, que as gerações anteriores, ele acrescenta.

Yang diz que viu o estilo das mulheres norte-coreanas evoluir baseado no estilo popular dos K-dramas.

“Se os jovens norte-coreanos assistem aos programas de TV sul-coreanos, eles vão querer mudar seus cabelos e roupas para o mesmo estilo deles”. “Então, Isso tem efeito nas tendências de moda, estilo de cabelo e padrões de beleza dentro da Coreia do Norte”, diz Park. Ele acrescenta moda e padrões de beleza vão além da superfície, eles indicam uma implícita mudança dentro da sociedade.

INDÚSTRIA DA BELEZA DA COREIA DO NORTE

Apesar da ausência de reconhecimento internacional das marcas de cosméticos norte-coreanas, a mídia estatal da Coreia do Norte (KCNA) alega que a indústria de cosmético está prosperando. Em novembro, Pyongyang sediou uma mostra nacional de cosméticos, onde “mais de 137.00 produtos de beleza” foram apresentados, incluindo “novos sabonetes que removem resíduos da pele e cosméticos funcionais que ajudam na circulação sanguínea, produtos de beleza e cosméticos anti-idades” de acordo com a KCNA. 

Kim Jong Un inspeciona uma indústria de cosméticos em Pyongyang em 2017. Crédito. STR/AFP/Getty Images

Kim Jong Un está construindo o legado do seu avô, Kim Il Sung, fundador da Coreia do Norte, que criou a primeira indústria de cosméticos do país em 1949. Kim Il Sung, que usou os cosméticos para elevar a moral das soldadas mulheres em Manchuria, durante a batalha com o Japão, logo no início, notou o poder da beleza em mudar o pensamento das pessoas. Seguindo seus passos, o Kim neto, está investindo nas marcas estatais Unhasu e Bomhyanggi para criar os “melhores cosméticos do mundo”, reportou a agência de notícias KCNA em 2017.

O recente impulsionamento de desenvolver a indústria doméstica de cosméticos, vem em meio a profundas sanções internacionais, que fez com que ficasse mais difícil para a Coreia Norte, importar ingredientes e produtos de alta qualidade, de acordo com o professor Nam.

Nam disse que Kim também viu oportunidade na crescente popularidade dos produtos de beleza da Coreia do Sul, para produzir sua própria versão de cosméticos coreana para exportação, tendo como inspiração a embalagem de produtos sul-coreanos, bem como seus ingredientes populares como o ginseng.

Cosméticos norte-coreano na vitrine do escritório de Nam, mostra a semelhança com as embalagens dos produtos sul-coreano. Crédito. CNN

No início do ano, a KCNA informou que a empresa de cosméticos Sinuiju, “desenvolveu vários cosméticos funcionais como séruns para crescimento de cílios, e máscara para tratamento de acne”, e estava exportando para outros países como Rússia e China.

‘A BELEZA É LIVRE’

Cosméticos locais devem estar facilmente disponíveis na Coreia do Norte, mas eles não têm o mesmo cache ou variedade das marcas estrangeiras.

Pessoas que usam cosméticos estrangeiros contrabandeados, não apenas experimentam seus próprios estilos, mas tentam forçar o limite do que é aceitável na Coreia do Norte, disse Park.

“Você está vestindo roupas que supostamente não deveria usar, o que tem sido influenciado pela mídia estrangeira ilegal”, disse ele. “Você então está sinalizando para sua comunidade e amigos, que é um pouco diferente e está disposto a quebrar as regras que são no mínimo de golpe baixo”.

Joo Yang põe um batom vermelho em seu apartamento em Seul. Crédito. CNN

A tentativa de Pyongyang de controlar as escolhas pessoais de seus cidadãos, só pode ir até certo ponto, escreveu o professor Dong Wan, especialista em cultura norte-coreana da Universidade de Dong A, em um artigo encomendado pelo governo sobre o tema: influência da Coreia do Sul no reino isolado.

“Apesar das autoridades norte-coreanas reprimirem certos estilos de cabelo e roupas, que é chamado de cultura decadente do capitalismo, há um limite sobre o que eles podem ter controle, com relação aos desejos e necessidades dos cidadãos”, escreve Kang.

“Seguir a influência sul-coreana com relação às roupas, maquiagem e cabelo, perturba todo dia as expectativas e pode levar ao descontentamento e ceticismo com relação ao regime norte-coreano. Ao imitar a Coreia do Sul, eles estão divergindo da sociedade, e isso mostra que a subcultura têm se formado como um fator de resistência ao regime”. 

Yang e Nara Kang, dizem que na Coreia do Sul, elas são capazes de se expressar de uma forma que antigamente não eram permitidas.

“Quando fui pela primeira vez à uma loja de cosméticos na Coreia do Sul, jurei que tinha ido à loja de brinquedo na Coreia do Norte, porque tinha uma grande variedade de cores, como a dos brinquedos”, lembra Kang.

Brilhos labiais coloridos, dentro de uma vitrine em uma loja de cosméticos em Seul, Coreia do Sul Crédito. CNN

“Para mim, a beleza é livre”, disse ela. “Agora, tenho mais controle sobre minha vaidade”.

Yang disse que várias amigas na Coreia do Norte, ficaram noivas, sem nem ao menos terem sido capazes de se vestir do jeito que queriam.

“Sofremos lavagem cerebral do governo norte-coreano, então, ainda gostamos do líder supremo, mas o desejo de parecer bonita, é outra questão”, diz Yang. “A raiva começa a crescer dentro de você, questionando o porquê não deve fazer isso?”

Park que trabalha com muitos dos desertores recém-chegados na Coreia do sul, prevê uma grande mudança que a beleza pode trazer à sociedade norte-coreana.

O ativista explica que o governo tomou conhecimento que a geração mais jovem está se rebelando contra a cultura aprovada pelo governo, Isso força-o a se adaptar e permitir algum grau de flexibilidade em ordem de manter o poder.

“Basicamente, força o governo a responder a questão: Eles vão estar com essa mudança ou apenas vão reprimi-la?”

Fonte: CNN.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores originais e não refletem necessariamente a opinião das Coreanas de Taubaté.

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