23/05/2022

Conselho de Seul a grávidas: Cozinhe, limpe e permaneça atraente

As diretrizes, publicadas em um site do governo, provocaram reações de pessoas que as consideraram um símbolo de visões anacrônicas em um país patriarcal.

Antes de dar a luz, cheque se sua família tem papel higiênico suficiente. Prepare refeições para o seu marido, que certamente “não é bom em cozinhar.” Arrume seu cabelo, “então desse jeito você não parecerá desarrumada” mesmo quando você sai sem tomar banho. E depois que o bebê nascer, mantenha um “vestido pequeno” a vista — você irá precisar de motivação para não dar aquela mordida extra.

Esses conselhos, dados pelas autoridades de Seul para as mulheres grávidas, tem criado repercussão na Coreia do Sul, onde o governo não pode se dar ao luxo de se atrapalhar enquanto tenta desesperadamente obrigar as mulheres a ter mais bebês e reverter a taxa de natalidade mais baixa do mundo.

Os conselhos as grávidas foi a primeira publicação do web site em 2019. Mas eles receberam atenção do público somente atualmente, causando um tumulto nas redes sociais, onde os internautas disseram que isso reflete a visão antiquada que persistem em segmentos da sociedade profundamente patriarcal e pedem sua remoção.

Yong Hye In, uma ativista e política disse que, segundo as diretrizes, as responsabilidades de uma mulher com a criação dos filhos foram dobradas por ter que cuidar também de seu marido.  Uma tática melhor para os casados ​​com homens incapazes de fazer coisas como jogar comida estragada fora, escreveu Yong no Twitter, seria o divórcio.

Especialistas chamaram as dicas do governo uma oportunidade perdida. “Eu acho que isso foi escrito por alguém que nunca deu a luz,” disse Dr. Kim Jae Yean, presidente da associação de ginecologia e obstetrícia da Coreia. Ele acrescentou que o governo deveria ter fornecido conselhos práticos sobre questões sobre a amamentação.

Uma petição online começou semana passada, que já foi assinada por mais de 21 mil pessoas, chamado de desculpas dos oficiais, bem como ação disciplinar para aqueles que divulgaram as diretrizes.

Em um e-mail para o The New York times, a divisão de saúde pública do governo da cidade de Seul disse se sentir “responsável por não revisar e monitorar o conteúdo, aprovado na época, de forma completa e rigorosa.” Disse que revisaria seu conteúdo online e melhoraria o treinamento de sensibilidade de gênero para todos os funcionários municipais.

Enquanto as partes mais ofensivas do guia foi removido, algumas das dicas permanecem no site, e prints do texto original continuam circulando nas redes sociais.

“Por que estamos procurando a causa da taxa de natalidade tão baixa? Está bem aqui,” escreveu uma pessoa no Twitter. Outra mulher enfurecida com as regras disse “quem fez esse guia? Tem muita coisa pra ser corrigida.”

Alguns legisladores criticaram a mensagem como prejudicial à reputação da Coreia do Sul.

“É estranho que as advertências anacrônica de como as mulheres grávidas deveriam servir suas famílias ainda está sendo distribuído,” Woo Sang Ho, um legislador do governante partido democrata, escreveu semana passada no Facebook, antes do guia ser excluído.

Figura 2 Crianças brincando em Seul na terça feira

Outros, no entanto, disseram que as críticas online foram muito longe.

“Eu não acho que foi uma sugestão tão ridícula a mulher preparar comida e arrumar a casa,” disse Kyung Jin Kim, 42, uma advogada formada em Seul, que recentemente deixou sua carreira para começar uma família. Mas ela disse que o guia poderia ser mais útil “se o tom não fosse de um coreano de meia idade ou de uma velha sogra coreana.”

Sob as recomendações, as mulheres foram recomendadas a verificar os itens essenciais de sua casa para que seus familiares “não se sentissem desconfortáveis.” Elas também foram incentivadas a limpar a geladeira, preparar refeições e encontrar alguém pra cuidar de seus outros filhos.

As dicas não mencionavam responsabilidades para os maridos. Mas tinham algumas sugestões de como se tornar mais atraentes para eles.

“Pendure as roupas que você usava antes do casamento ou roupas pequenas que gostaria de usar após o parto, colocando uma em um lugar que você possa ver facilmente,” o texto original escrito no site. Adicionava-se também “quando você sentir que gostaria de comer mais do que o necessário, ou pular os exercícios, você se motivará ao olhar para as roupas.”

Embora a Coreia do Sul tenha se tornado uma potência econômica e cultural, muitas mulheres ainda vivenciam a misoginia em termos muito práticos.

De acordo com uma reportagem de 2017 pela organização de desenvolvimento e cooperação econômica, a diferença salarial de gênero na Coreia do Sul é a maior entre seus 37 países membros. As mulheres trabalhadoras ganham quase 40% menos que os homens e muitas param de trabalhar quando têm filhos, muitas vezes pressionadas por suas famílias e locais de trabalho.

Outros países da região, incluindo o Japão – que também tem uma população mais envelhecida e uma baixa taxa de natalidade – apresentam amplas desigualdades de gênero, especialmente em relação á gravidez. No Japão o termo “matahara” (abreviação de assédio materno) pegou quando as alegações de uma mulher que sofreu bullying no local de trabalho após o parto foram ouvidas na suprema corte do país em 2014.

Essas populações em declínio representam uma ameaça para as economias dos países, tornando ainda mais importante que os governos tenham cuidado ao incentivar as mulheres a ter filhos.

No ano passado, a população da Coreia do Sul diminuiu pela primeira vez registrada, caindo em quase 21.000. A taxa de natalidade caiu mais de 10,5% e a taxa de mortalidade aumentou 3%. O ministro do Interior e Segurança reconheceu as implicações alarmantes, dizendo que “em meio ao rápido declínio da taxa de natalidade, o governo precisa realizar mudanças fundamentais em suas políticas relevantes.”

Embora o governo de Seul possa ter hesitado em seu conselho, a reação, alguns disseram, provou que as atitudes estavam mudando.

“Este é apenas um conselho desatualizado,” disse Adele Vitale, uma doula e uma residente italiana que viveu em Busan, uma cidade portuaria na costa sudeste do país, por uma década.

Sra. Vitale,  que trabalhou principalmente com mulheres estrangeiras casadas com coreanos, disse que embora a sociedade coreana tradicionalmente considere a mulher grávida “incapacitadas,” ela tinha visto cada vez mais seus maridos adotando pontos de vistas mais igualitários em relação ao parto e criação dos filhos.

“A dinâmica da família está evoluindo” disse ela. “As mulheres não querem mais ser tratadas dessa maneira.”

Fonte: NY TIMES.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores originais e não refletem necessariamente a opinião das Coreanas de Taubaté.

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