23/05/2022

Documentário ‘Side by Side’ aborda as memórias de coreanos adotados

Escritora: Joan Macdonald

Desde 1950, cerca de 180.000 crianças sul-coreanas têm sido entregues a orfanatos e adotados em volta do mundo. Enquanto adoções entre países proporcionam a essas crianças novas famílias e novas casas, para muitas crianças o medo do abandono persiste, uma sensação de perda profundamente ocultado,  apenas ressurgem anos depois. Alguns adotados acharam complicado formar um senso de identidade em seu novo país, embora sabendo tão pouco sobre o país de onde vieram.

    Essa é a história que o documentarista Glenn Morey sabe bem. Ele foi deixado na porta de um orfanato em Seul, em uma noite de inverno, quando tinha apenas duas semanas de vida. Adotado por uma família dos Estados Unidos, ele cresceu com a sensação de que a história da sua família não era a dele. Que sua amável família não se parecia com ele, que ele não fazia parte do passado da família. Ele eventualmente encontrou um jeito de confortar e conciliar os diferentes legados que o moldaram. 

    Enquanto produzia um filme sobre as experiências de diferentes grupos raciais na América. Morey ficou comovido pelas histórias de mães e filhas imigrantes das Filipinas. Quando elas descreveram suas experiências em relação ao racismo e como foram intimidadas no seu novo país, ele se sentiu impressionado, não só pela sua honestidade, mas como eram parecidas as experiências vividas entre eles. Ele decidiu então que precisava se reconciliar com suas origens e enfrentar os sentimentos muito submersos sobre sua adoção. Como um jeito de aprender mais sobre as adoções coreanas entre países, Morey começou a trabalhar no projeto ‘side by side’, um documentário.

Figura 2 Pediram aos adotados para que eles contassem suas histórias de forma cronológica.

“Minha esposa Julie Morey e eu temos sido parceiros de trabalho desde meados dos anos 80,” ele disse. “Muitos dos nossos trabalhos tem sido em filmes comerciais para publicidades e conteúdo online, junto com alguns projetos de documentários muito especiais. Quando saímos da nossa agência em 2012, procuramos projetos que alavancaram nossas habilidades criativas, de produção e mídia. Nós encontramos ‘side by side’.”

    Com suas experiência em mídia, com ênfase no ambiente multi-telas e integração multiplataforma, os cineastas decidiram transformar Side by Side em um projeto multiplataforma integrado.

    “Side by side inicialmente tomou a forma de um online video installation (um site transmitindo 100 entrevistas filmadas separadamente, um total de 21 horas de matéria),” disse Morey. “Ver aquelas histórias é tão diferente de assistir um filme convencional com um único começo, meio e fim. Com cada lembrança ressurgida, cada pausa, cada revelação e, à medida que cada minuto passa, os espectadores conhecerão esses contadores de histórias intimamente.”

     Mais tarde, Side by Side foi lançado como um filme totalmente minimalista, unindo elementos essenciais da experiência em 38 minutos, uma duração adequada para plataformas de streaming de vídeo online e exibição em cinemas.  Side by Side foi adaptado para um documentário ainda mais curto, o filme de 16 minutos Given Away, em parceria com o The New York Times feito sob medida para o site do jornal e YouTube. O filme permaneceu na lista dos dez primeiros no site do New York Times por mais de uma semana e teve mais de 300.000 visualizações em seu canal no YouTube.  Em 2019, os cineastas apresentaram Side by Side como uma instalação de vídeo arte multi telas em Seul e na cidade de Nova York.

Figura 3 Glenn Morey na exibição de side by side em Seul.

Por que compartilhar a história de tantas formas e não simplesmente como um filme?

     “Um filme é sempre um filme,” disse Morey. “Qualquer obra de arte deve ser limitada em seu potencial de público a um único local? A seleção de um meio deve excluir todos os outros? Uma ideia forte poderia ficar ainda melhor, quando permitida a explorar uma multiplicidade de forma?” 

    Para o projeto, o produtor entrevistou 100 órfãos coreanos em seis línguas, em 16 cidades, e em sete países. Incluindo homens e mulheres de 17 a 70 anos. Muitos dos órfãos coreanos deixaram a Coréia quando crianças, porém alguns um pouco mais velhos, com memórias dos orfanatos e de suas famílias de origem. Alguns se desenvolveram com suas famílias, outros não.  O que quer que a vida tenha dado a eles, todos estavam dolorosamente cientes do que perderam.

    Os diretores escolheram não enquadrar as entrevistas com uma lista de questões. Entretanto, eles pediram aos participantes para descrever suas histórias de maneira cronológica, começando com suas primeiras memórias. Depois que a câmera estava desligada, os produtores perguntaram aos participantes quanto de suas histórias de adoção eles compartilhavam com as outras pessoas. Muitos falaram que contavam bem pouco sobre suas histórias aos familiares, amigos e parentes.

    “Essas 100 histórias são imensamente valiosas para os adotados, famílias adotivas e nossa sociedade no geral,’’ disse Morey. ‘’Nós somos absolutamente determinados a fazer com que o projeto corresponda à importância dessas histórias.’’

    Morey, que recebeu centenas de prêmios de publicidade criativa, recentemente compartilhou seus pensamentos do projeto em uma palestra conduzida remotamente pela The Korea Society. Ele percebeu que, independentemente de os adotados terem lutado na vida ou fossem incrivelmente realizados, mesmo que tivessem famílias e vidas maravilhosas, no final todos falaram sobre suas experiências de adoção em termos dolorosos.

    Para Morey, compartilhar as experiências de coreanos adotados foi transformador. As histórias de pessoas tão fortes em volta do mundo foi ‘’incrivelmente reveladora,’’ para ajudar ele a entender como ele realmente se sentia.

   ‘’Na minha própria jornada, eu comecei a pensar nos coreanos adotados como família,’’ disse Morey. ‘’As histórias deles são minhas histórias. Suas alegrias são minhas. Suas feridas são minhas feridas. Cada adotado que eu conheci, cada história que eu escutei informa minha identidade como um asiático-americano na raça, um coreano americano na etnia e como um coreano adotado no coração e na mente. Quando eu comecei essa jornada com 42 anos, e como cineasta nos últimos sete anos, tudo isso é um presente – um presente que me permitiu chegar a um acordo com minha própria histórias de uma forma aberta e autêntica.’’ 

    A história será compartilhada como um Audible Original (um vendedor e produtor de entretenimento de áudio falado, informações e programação educativa na Internet), em Novembro, mês nacional da adoção. Historicamente, o mês tem sido um local para promover a adoção para agências e defensores de adoção. 

    “Nos últimos 10 anos, no entanto, muitos adultos adotados aproveitaram a oportunidade para inverter o roteiro, não especificamente em oposição à adoção, mas em um esforço para trazer as vozes de adultos adotados para a narrativa de adoção, muitos dominado por pais adotivos e agências de adoção,” disse Morey.

    O  Audible Original será uma adaptação de entrevistas de Side by Side, usando trechos reais de entrevistas selecionadas. Os cineastas também estão trabalhando em um livro impresso.

Fonte: Forbes.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores originais e não refletem necessariamente a opinião das Coreanas de Taubaté.

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