23/05/2022

O que a polêmica sobre ‘Minari’ diz sobre ser americano

Monica Yi olha para um trailer frágil no meio de um campo vazio na zona rural do Arkansas. “O que é isso?” A esposa atordoada pergunta ao marido. Jacob Yi responde sem hesitar: “Nossa casa.”

    Isso é a cena de abertura de ‘Minari.’ Essas palavras, como muitas no filme, são faladas em coreano. Jacob e Monica são imigrantes, e como mais de 20% da população dos Estados Unidos, eles não falam muito inglês em casa. 

    Então quando o Globo de Ouro for ao ar nesse domingo, esse filme americano escrito e dirigido por um homem americano sobre a luta de uma família em sua fazenda americana estará competindo em uma categoria surpreendente: melhor filme em língua estrangeira.

    As regras da Hollywood Foreign Press Association faz com que esse filme seja inelegível na categoria melhor filme. E com o lançamento do filme para locação de serviço de streaming nesta semana, a conversa está longe de terminar.

    “ Isso parece pessoal… Isso parece com a pergunta ‘De onde você é?’ pergunta que os americanos asiáticos sempre recebem,” disse Nancy Wang Yuen, uma socióloga e autora de “Reel Inequality: Hollywood Actors and Racism.” “A suposição é essa: se você tem um rosto de asiático, você não deve ser daqui.”

‘Minari’ é uma história americana de vários aspectos

    Lee Isaac Chung, o escritor e diretor de ‘Minari’ nativo do Colorado, disse que se baseou em muitos aspectos da sua própria experiência crescendo como uma criança de pais imigrantes coreanos em uma fazenda no Arkansas.

Figura 1 diretor e escritor Lee Isaac Chung (direita) com os atores Steven Yuen (esquerda) e Will Patton (meio) no set de ‘Minari”.

O filme tem esse título pelo nome coreano para uma erva resistente. Mas não há dúvidas de que as cenas vividas e ricamente texturizadas do filme contam uma história decididamente americana – de paisagem pastorais de Ozark a bancos de igreja no interior e a casa da família Yi.

    “Minari” varreu todos os prêmios do sundance ano passado. Também está recebendo ótimas críticas de pessoas cujas comunidades retratam – tanto imigrantes quanto não – imigrantes. Um jornalista do Arkansas times recentemente chamou isso de “a história de maioridade mais autêntica que vi refletida na tela sobre nossa parte do mundo.”

     Chung disse que dá crédito a Willa Carther ganhadora do prêmio Pulitzer de melhor ficção – que fez a crônica da vida nas planícies americanas há mais de um século – por inspira-lo a contá-la.
    Sobre seu livro “O Pionners!” e “My Antonia”, Carther uma vez disse que ela escrevia histórias inspiradas sobre sua própria educação após anos imitando autores urbanos de Nova York.

     “Ela escreveu que seu trabalho realmente decolou quando ela parou de admirar e começou a se lembrar,” disse Chung para CNN. “E foi isso que me fez sentar e finalmente por para fora minhas memórias através da escrita. E isso se tornou o núcleo do meu filme.”

Por que a indicação do filme ao Globo de ouro atingiu um nervo.

     As memórias que Chung tece em ‘Minari’ são algo com que muitos americanos que cresceram em famílias imigrantes podem se relacionar: A alegria de um membro visitante da família trazendo especiarias de casa, as lutas de diferentes gerações para se conectar, as emoções reprimidas de pais arriscando tudo para sustentar sua família, os rostos das crianças que estão tentando se encaixar.

Figura 2 Neto David (Alan S. Kim) e sua avó Soonja (Yoon Yeo Jung) tem um relacionamento difícil em ‘Minari’.

Para Yuen, isso é importante. “Muitos de nós estão vendo nossas histórias em uma tela pela primeira vez,” ela disse.

     Então, quando surgiram as primeiras notícias de que as regras de elegibilidade do Globo de ouro forçariam ‘Minari’ a competir na categoria de “Melhor filme na língua estrangeira,” doeu.

     O ator Daniel Dae Kim e outras celebridades asiáticas rapidamente usou sua mídia social para compartilhar sua contestação. Kim escreveu isso como “o equivalente cinematográfico de receber ordens para voltar ao seu país quando esse país é na verdade a América.”

     Para muitos, isso é como um dejá vu do ano anterior, quando o filme de Lulu Wang chamado “The Farewell” foi retirado da cerimônia de premiação da categoria de melhor comédia porque muito do filme estava em mandarim.

     “É ótimo que esses filmes estejam sendo feitos, porém é péssimo que eles estejam sendo colocados na categoria de filmes em lingua estrangeira,” disse Yuen. “Nós não devemos ser punidos por contar histórias americanas diferentes que não foram contadas antes.”

     E é particularmente preocupante, diz Yuen, em um momento em que os asiáticos-americanos enfrentam cada vez mais ataques verbais e físicos.

     “Quando você chama “Minari” de um filme estrangeiro, isso não ajuda o tipo de sentimento anti-asiático geral, o estereótipo perpétuo do estrangeiro se origem asiática estão lidando, não apenas de uma forma representacional abstrata, mas em uma experiências vivida, sob ataque de nosso governo e indivíduos.”

O que as regras do prêmio diz

     O Hollywood Foreign Press Association rules para o Globo de ouro declara que só filmes com 50% ou mais de seus diálogos em inglês são precisos para competir na categoria de melhor filme.

     Outras premiações usam critérios diferentes. O Oscar, por exemplo, aceita filmes em qualquer língua para competir pelo melhor filme. E no último ano “Parasite”, um filme na língua coreana feito em Seul, se tornou o primeiro filme em outra língua (não inglesa) a ganhar o prêmio.

     As regras do Globo de Ouro não são novas. Mas alguns argumentam que já passou da hora da associação reavaliar os critérios que usa para seus prêmios de prestígio.

     Charlene Jimenez, diretora de parcerias de entretenimento e defesa da organização sem fins lucrativos Define American, descreveu as indicações do Globo de Ouro como parte de um “padrão de apagamento”, já que recentemente pediu uma revisão do requisito de idioma.

     “Mais de 350 línguas são falados nos lares americanos atualmente. Então o que língua ‘estrangeira’ significa?” Jimenez falou ao CNN. “É um momento muito importante para nós, como sociedade americana, estarmos investigando nosso próprio preconceito sobre filmes como este, sobre histórias como esta, sobre histórias de imigrantes – o que ressoa ou não como “americano” para as pessoas.”

     Os Estados Unidos não tem uma língua oficial. E mais de 20% da população dos Estados Unidos de 5 anos ou mais falam um idioma diferente do inglês em casa, de acordo com os dados do Censo.

     Se as regras do Globo de Ouro não mudar com o passar do tempo, pode haver consequências além da tela grande, diz William Yu, um roteirista e ativista que tem sido um crítico vocal do branqueamento em Hollywood.

     “Isso tem implicações na mudança da indústria sobre quem é reconhecido e quem não é,” diz ele. “Isso pode ter um impacto desproporcional na trajetória de sua carreira.”

     E histórias importantes podem passar despercebidas – e invisíveis.

     “O HFPA provavelmente está apagando uma boa parte das histórias de imigrantes que virão de comunidades marginalizadas. À medida que essas comunidades amadurecem e procuram contar suas próprias histórias, nem sempre será em inglês,” diz ele. “E ouvir que se o filme não for 50% em inglês para ser considerado o melhor filme, então você nunca será o suficiente – há um certo tipo de inferioridade implícita quando você pode ser considerado o melhor filme em língua estrangeira mas não o melhor filme.”

O diretor temeu que teria que fazer ‘Minari’ em inglês 

     Por sua vez, o roteirista e o diretor de “Minari” diz não sentir que competir na categoria de filmes em línguas estrangeiras desonra o filme ou sua obra. 

       “Eu me sinto muito dividido com tudo que aconteceu. São apenas regras que eles tem nessa categoria,” diz ele. “Essas conversas são boas… estamos começando a ver que ser americano, ser alguém nesse país – a imagem disso é mais complexa do que poderíamos imaginar. E eu sinto que os filmes precisam refletir isso. Regras é instruções devem refletir isso. E é bom que possamos ter essa conversa.”

Figura 3 Steven Yuen interpreta o pai de família Jacob Yi em “Minari” Allen S. Kim interpreta seu filho, David.

Quando Chung pensa sobre a linguagem e seu filme, porém, outra coisa vem a mente.

    “Minha avó, se ela ainda estivesse viva, ela ficaria muito orgulhosa,” ele disse, “que aguentei e fiz um filme em coreano e não me comprometi e depois comecei a usar aquela língua estrangeira, o inglês.”

    Muitos antes dessa controversa começar, Chung sabia que ele iria precisar conseguir fundos para fazer “Minari” — e ele estava preocupado.

    Ele queria contar a história em coreano. Mas ele temia que fosse uma venda difícil – não para o público, que ele sabia que se conectaria com uma boa história quando eles a vissem — mas para possíveis compradores.

    Então ele também fez um roteiro com mais diálogos em inglês, só para garantir.

    Com sorte, disse Chung, a produtora Christina Oh, que também é coreana-americana, apoiou sua versão.

    “Ela foi muito inflexível desde o início que temos que fazer isso em coreano, do jeito que crescemos. … Ela disse como produtora, ela vai sair e fazer aquele caso, e fazer aquela luta.”

    Isso significou para Chung que ele estava pronto para mostrar ao mundo uma história que reflete a maneira como tantas famílias americanas vivem.

Fonte: CNN.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores originais e não refletem necessariamente a opinião das Coreanas de Taubaté.

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