23/05/2022

Na Coreia do Sul antagonismo em relação a China vem crescendo

Seul, Coreia do Sul – para os telespectadores sul coreanos a série histórica de fantasia ‘Joseon Exorcist’ parecia ter todos os ingredientes para um sucesso de grande orçamento na televisão.

 Passada no século 15, o drama segue histórias bem conhecidas da família real da famosa dinastia Joseon da Coreia que lutam contra os espíritos malignos em uma reviravolta ficcional que leva a loucura de zumbis que atinge o entretenimento sul-coreano.

Mas quando a série estreou mês passado, os sul coreanos não ficaram impressionados. Em vez disso, muitos ficaram furiosos porque os personagens coreanos foram mostrados bebendo licor chinês e comendo comida chinesa, como dumplings, tortas de bolo lunar e “ovos  centenários” em conserva.

A indignação com os elementos chineses, junto com outras imprecisões históricas, rapidamente se transformou em um boicote de anunciantes. O show que tinha orçamento de US $ 28 milhões, foi cancelado após apenas dois episódios. O canal de TV em que apareceu se desculpou por ofender o povo coreano.

O incidente reflete a crescente animosidade em relação ao que muitos sul coreanos consideram um influência chinesa inadequada no entretenimento sul coreano, bem como uma manipulação da história para reivindicar vários aspectos amados da cultura coreana. 

Nos últimos meses, também houve erupções de raiva nacionalista sobre as alegações da mídia chinesa de que o kimchi, um prato de repolho fermentado onipresente na Coréia, se originou na China.

Por trás das tensões estão as preocupações mais amplas sobre a crescente força econômica e militar da China e sua postura mais combativa em relação aos vizinhos, que analistas dizem ser uma tentativa de reafirmar a posição de Pequim como potência regional dominante.

Mas a abordagem da diplomacia do chamado “guerreiro lobo” da China está alienando os sul coreanos em um ritmo alarmante. De acordo com duas pesquisas de opinião recente, as percepções da Coréia do Sul sobre a China são agora quase iguais às opiniões sobre o Japão, o ex governante colonial da Coréia.

Figura 1 Arquivo – as bandeiras da Coréia do Sul e da China tremulam ao lado do Portão da Paz Celestial durante a visita do presidente sul-coreano Moon Jae-In em Pequim, China, em 15 de dezembro de 2017.

Como isso tudo deu errado?

Isso nem sempre foi ruim. Em 2015, somente 35% dos sul coreanos tinha uma visão negativa da China, de acordo com as informações da Pew Research Center. Em 2020, foi duplicado para 75%. 

Os laços entre a Coreia do Sul e a China se deteriorou especificamente depois de 2017, quando Seul instalou o Terminal High Altitude Area Defense (THAAD) um sistema de defesa antimíssil para combater a ameaça representada pela Coréia do Norte. Pequim se opôs a implantação do sistema antimíssil THAAD, uma vez que seu radar pode ver profundamente na China.

Em resposta, a China empreendeu uma dolorosa campanha de retaliação econômica. Grupos de turistas chineses suspenderam as viagens a Coreia do Sul. As lojas na China pertencentes a Lotte, conglomerado sul-coreano que forneceu o terreno para o sistema THAAD, foram fechadas depois de não receberem a aprovação regulatória.

Cantores sul coreanos do K-pop, muito populares entre os chineses, tiveram suas turnês canceladas e, desde então, não podem realizar shows na China continental.

De acordo com algumas estimativas, a disputa custou bilhões de dólares para a Coreia do Sul. Muitos analistas dizem que também marcou um ponto de inflexão para a percepção dos sul-coreanos da China.

“THAAD entrou e tudo mudou,” diz Kim Ji Yoon, um cientista político e comentarista baseado em Seul especializado em análise de opinião pública.

Batalha do Kimchi

Mas as tensões entre a Coreia do Sul e a China só recentemente se tornaram mais emocionais, especialmente depois que o kimchi entrou no campo de batalha cultural.

A polêmica começou quando a ISO, um regulador com sede na Suécia, publicou novos padrões para a produção de paocai, um prato chinês feito de vegetais fermentados.

O Global Times, um jornal estatal da china provocativo e nacionalista, gabou-se de que a nova certificação prova que a China estabeleceu a referência da indústria para o paocai, que disse incluir também o kimchi.

Figura 2 Arquivo – participantes fazem Kimchi, um prato básico coreano feito de vegetais fermentados, para um recorde mundial do guiness para o maior número de pessoas fazendo kimchi em um só lugar durante o Seoul Kimchi Festival no Seoul Plaza em Seul, 4 de novembro de 2018.

Muitos especialistas observaram que paocai e kimchi são pratos diferentes. Mas a noção de que a China havia criado a versão oficial do kimchi ainda era altamente ofensiva para muitos coreanos, que servem kimchi em quase todas as refeições e o consideram um prato nacional.

Criando inimigos.

O incidente com o Kimchi foi um do exemplo de “guerreiros lobos” da China marcando um gol contra, de acordo com Peter Charles, de Lowy Institute da Austrália.

“Ao escolher uma briga totalmente desnecessária sobre um tópico sem interesses diplomáticos, Pequim apenas prejudicou ainda mais sua reputação com a população sul-coreana e tornou a vida mais complicada para seus colegas em Seul, que de outra forma desejam cooperar com a China,” escreveu Charles.

Kim Joon Hyung, chanceler da Korean Nation Diplomatic Academy, que treina diplomatas sul-coreanos, disse á VOA que estava intrigado com as medidas de Pequim.

“Você não pode ser um líder global se você se comporta dessa maneira,” disse Kim. “A manipulação da história – eles acham que o kimchi é uma comida deles – coisas assim.” 

“Eu tenho muitos amigos na China, acredite em mim. Eu na verdade aconselho eles: não façam isso. Vocês tem uma história rica e podem ter seus próprios soft power (habilidade/qualidade de um estado). Por que vocês estão tão interessados nessa [abordagem] pequena?” ele adicionou.

 Mas, como acontece com muitos países, a diplomacia nem sempre se trata de fazer amigos.

“Ás vezes, ser temido também é muito importante,” diz Dali Yang, especialista na China e professor da universidade de Chicago.

Muitos analistas dizem que o comportamento mais agressivo da China é uma tentativa de restaurar sua antiga estatura, após um “século de humilhação” quando foi subjugada pelas potências ocidentais e japonesas.

“Claramente, é aqui que o presidente Xi [Jinping] desempenhou um grande papel em termos de disposição para lutar.” Disse Yang. Uma china recém-poderosa, diz ele, quer sinalizar para seus adversários e rivais que está disposta a sofrer perdas para atingir seus objetivos. 

Seul preso no meio.

Mas Coreia do Sul é um amigo ou um rival da China? Isso é complicado, em grandes partes graças a uma história que viu os dois países lutarem em lados diferentes da guerra da Coréia doas anos de 1950.

Pequim e Seul estabeleceram laços diplomáticos em 1992. Desde então, as relações têm sido praticamente estáveis, embora a China continue aliada á Coréia do Norte e a Coréia do Sul continue sendo um aliado dos Estados Unidos no tratado.

Figura 3 Arquivo – O ministro das relações exteriores da china Wang Li (L) e o ministro das relações exteriores da Coreia do Sul Kang Kyung Wha (R) cumprimentam antes de sua reunião no ministério das relações exteriores em Seul, Coreia do Sul, 26 de Novembro de 2020.

Com a China agora a segunda maior economia do mundo, a Coreia do Sul está em uma posição estranha: não só hospeda cerca de 30.000 soldados americanos, mas também depende economicamente do principal rival de Washington, que está bem ao lado.

Mas se for para escolher entre os dois, muitos sul-coreanos claramente preferem os Estados Unidos, diz Kim Ji Yoon, o pesquisador de opinião pública, que observa que a aliança é tão antiga quanto a própria Coreia do Sul.

“Não temos nenhum vínculo emocional ou psicológico com a China, mas temos com os EUA”, diz ela. “Às vezes tem sido acidentado e espinhoso, mas ainda assim é uma aliança de 70 anos. Estamos juntos e sabemos qual é o nosso inimigo, qual é o nosso objetivo e compartilhamos os valores democráticos.”

Mas há uma crescente desconexão entre a opinião do público sul-coreano e seu governo, que tem o cuidado de não atrapalhar as relações com Pequim, disse Kim.

Em particular, o presidente sul-coreano, Moon Jae In, tem relutado em se envolver nos esforços dos EUA para se opor explicitamente à China, como o grupo regional Diálogo de Segurança Quadrilateral.

Futuro Incerto

Embora a China ainda expresse ocasionalmente sua oposição ao sistema de mísseis THAAD, há sinais de que as relações diplomáticas podem melhorar antes de uma possível visita à Coreia do Sul por Xi da China.

Alguns relatórios até indicam que a China pode em breve suspender sua proibição informal de filmes e programas de TV sul-coreanos. Tal movimento provavelmente seria bem-vindo pelo grande número de fãs chineses do entretenimento sul-coreano.

Mas se as recentes controvérsias servirem de indicação, pode levar mais tempo para que muitos sul-coreanos se sintam confortáveis ​​em ver o conteúdo chinês dominar suas próprias telas.

Lee Ju Hyun contribuiu para este relatório.

Fonte: Voanews.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores originais e não refletem necessariamente a opinião das Coreanas de Taubaté.

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